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ONG oferece cursos e transforma vidas em Pernambués

[ONG oferece cursos e transforma vidas em Pernambués]
09 de Novembro de 2015 às 14:07 Por: Vagner Sousa Por: Leo Barsan (Twitter @leobarsan)0comentários

O sorriso de dona Miralva Bastos, 64 anos, ficou ainda mais largo desde o dia em que ela conheceu o Grupo Alerta Pernambués, o GAP, instituição social que leva o nome do bairro em que está localizada, em Salvador. O semblante cansado tenta, mas não consegue mascarar a alegria da ex-catadora de material reciclável, que, ano passado, aprendeu a fazer artesanato no GAP e hoje vende seus próprios produtos.

Dona Miralva: de ex-catadora de lixo a artesã

“Aprendi a fazer passadeiras, chaveiros, suportes para papel higiênico... E ainda me ajudaram a conseguir um benefício de um salário mínimo. Esperar em Deus que eu complete idade para me aposentar. Agora, tô na benção!”, diz dona Miralva, que mora sozinha no Jardim Brasília, desde que os dois filhos foram embora de casa.

A agora artesã está entre os 200 alunos matriculados em diversos cursos oferecidos pelo GAP, neste semestre. Atualmente em um imóvel de 200 m², na Rua Fernando de Araújo Góes, o grupo foi criado há 14 anos.

Segundo o coordenador da instituição, Peter Ângelo, neste tempo, estima-se que mais de 14 mil pessoas “de toda Salvador” tenham sido beneficiadas com as aulas profissionalizantes disponibilizadas pela instituição.

Na lista, além de artesanato, tem informática, salão de beleza e estética, maquiagem, gastronomia e dança. “Ainda temos parceria com o Sesc e o Senac. Em nosso Grupo temos acompanhamento de fisioterapeuta, serviços social e advocatícios. A nossa proposta é trabalhar com pessoas em situação de vulnerabilidade social da comunidade e, neste tempo, ultrapassamos diversas barreiras”, evidencia o coordenador.

Curso de maquiagem está entre os mais procurados

Ângelo estipula uma meta. “Não temos como acompanhar todos os casos, mas acontece de alunos deixarem os cursos porque conseguiram um emprego. A nossa meta é de 15% de inserção no mercado de trabalho”, conta.

Coordenador do GAP, Peter Ângelo, afirma que instituição já atendeu 14 mil pessoas

Ao longo de quase 15 anos, o GAP reúne diversas histórias de superação e exemplos. Uma destas histórias começa a ser contada já na recepção do Grupo. Mahylle Santana tem 20 anos e há três meses é a responsável por dar as boas-vindas a quem chega à instituição.

Mahylle é mulher transexual. “Na minha condição, é muito difícil lá fora, mas aqui fui muito bem acolhida. Não vejo implicância e posso ser eu. Tem sido uma experiência maravilhosa”, ressalta a recepcionista.

Mahylle é transexual e trabalha como recepcionista no GAP

Antes de ocupar o cargo, Mahylle era aluna do GAP. “Sempre ouvi falar do grupo e tive a oportunidade de fazer curso de informática”, lembra ela, que planeja, ainda, cursar gastronomia. “No futuro, quero abrir um restaurante, além de um atelier de moda. Consigo ver minhas mudanças e meu progresso desde que entrei aqui. Sou uma mulher vitoriosa, um exemplo”, define-se.

 

Gritos silenciosos

Em dias de aula, a aluna Alenilda Conceição, 39, sai da Engomadeira para aprender a fazer doces e salgados, maquiagem, bordado e estética capilar. Para ela, Pernambués e adjacências “tinham tudo para dar errado”. “O GAP conseguiu ouvir os gritos silenciosos e criou meios para que as pessoas consigam alcançar alguma coisa na vida com esses cursos gratuitos que são tão caros lá fora”, evidencia.

"O GAP ouviu os gritos silenciosos", diz Alenilda

Não é só o aspecto profissionalizante que, segundo Alenilda, está presente no trabalho da instituição. “Ninguém aqui é tratado com diferença e todos são especiais. Há mais felicidade em dar do que receber e cada experiência é especial. É a oportunidade de crescer em vários aspectos”, afirma a aluna, que também planeja ter seu próprio negócio. “A dona de casa hoje não quer mais fazer o feijão com arroz”, avisa.

 

Da cabeça aos pés

Quando a situação estava cada dia mais embaraçada, a cabeleireira Luciana Campos, 37, encontrou no GAP a oportunidade ideal para desenrolar suas aptidões e ampliar o mercado de trabalho.

“Agora atendo em domicílio. Procurei a instituição para desenvolver melhor o meu trabalho. Não sabia nada de tranças, nem de tecer cabelos. Achava tudo difícil, principalmente, quando a questão era pagar um curso de R$ 400”, disse.

Apaixonada por cabelos, cada dia Luciana aparece com um look, e trabalha em domicídio

A cada semana, Luciana aparece com um look diferente. “Tenho que experimentar novos visuais. O desafio agora é fazer colorimetria capilar (estudo das cores naturais do cabelo e modificações que podem ser feitas). Incentivo amigos e amigas a se inscreverem nos cursos. É bom que ocupa a mente”, contextualiza.

Após aprender a fazer unhas “arrancando os bifes” da própria irmã, a professora voluntária Ana Souza firmou parceria com o GAP para ensinar a técnica aos interessados. “Ela (a irmã) ainda me pagava. Hoje incentivo meus alunos para que abracem a profissão porque dá retorno”.

“Tenho firmado parcerias com salões do bairro para que as alunas façam estágio. Fico incomodada quando vejo uma menina na rua sem estudar e vendendo rifa. Minha intenção é ajudar Pernambués”, ressalta Ana.

Ana é professora voluntária: "minha intenção é ajudar Pernambués"

No entanto, a professora ressalta que, além do retorno financeiro para alunos, o GAP tem proporcionado a construção de amizades. “Melhor um amigo na praça, que dinheiro no caixa. Ajudo com meu conhecimento e as pessoas com as quais convivo aqui me edificam na parte emociona”, completa Ana.

 

Cozinha mágica

Os amanteigados, as broas e as pizzas que a aluna Socorro Santos, 44, aprendeu a fazer, deram a ela o gosto de poder voltar a trabalhar, após dois longos anos sem conseguir emprego. “Vendo tudo o que produzo e quero avançar mais. Vou colocar uma microempresa nesta área”, diz determinada.

Alunas do curso de panificação

Ela não desperdiça o que aprende e já faz escola. “Divido o pouco que sei com pessoas carentes na Chapada Diamantina. O GAP transforma vidas, inclusive a minha”, alegra-se.

A técnica de enfermagem Francisca Alves, 34, foi matricular a filha em um dos cursos, mas ela quem acabou ficando. “Há quatro anos não consigo emprego na minha área e vi no curso de doces e salgados uma oportunidade. Estou crescendo e, quem sabe, um dia não me arrisco nesses programas de gastronomia da TV”, projeta.

Suelen Tavares, 29, foi por “curiosidade” e agora se diz “apaixonada” por panificação. “Sempre gostei de cozinhar. O que produzo hoje levo para vender na igreja. Já acrescentei os cursos ao meu currículo”, reforça.

Francisca, Suelen, Socorro e Osvaldina estão se tornando mestres na gastronomia

Dona Osvaldina Matildes, 71, deixou de cozinhar “mais ou menos” e agora ganha dinheiro preparando comidas mais sofisticadas. “Não tenho preguiça de ganhar dinheiro. Aprendi até a fazer doces finos. A cozinha faz parte da minha família. Tenho três filhos que são cozinheiros. Tem sido tão bom que até no Pelourinho já desfilei. Só deu eu!”, diverte-se.

Emocionada, a assistente social Ângela Freire, que faz o acompanhamento de alunos e alunas no GAP, lembra que a valorização social dos participantes é o lema da instituição. “A gente percebe a mudança das pessoas em vulnerabilidades emocional e intelectual. São vários desafios, mas as portas se abrem. Os grupos ora excluídos estão dando frutos”, comemora.

Assistente social Ângela Freire: "grupos estão dando frutos

Por falar de questões emocionais, dona Miralva, lá do início da reportagem, teve a estima elevada, após conhecer o GAP. “Até namorado eu arranjei, mas não quero nada por agora não”, reflete. De olho na própria independência – mas sem deixar de construir boas relações, ela avisa: “eu tô é muderna (sic)”.

 

Relação de cursos

Veja abaixo as áreas e os cursos disponibilizados pelo GAP. Para se inscrever é preciso seguir alguns critérios como assiduidade, pontualidade, comportamento e vestimenta.

 

GAP na rede

As ações desenvolvidas pelo Grupo Alerta Pernambués podem ser conhecidas nas redes sociais. Confira os endereços:

 

Facebook

Perfil

https://www.facebook.com/gap.pernambues

 

TV GAP

https://www.facebook.com/TVGAP

 

Youtube

Canal

https://www.youtube.com/tvgapdagente

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