Já vivemos tempos muito mais terríveis, diz Gil sobre atual cenário político

Na última semana, mais precisamente na quinta-feira (1) e sexta-feira (2), o cantor Gilberto Gil esteve em solo soteropolitano para participar de duas festividades. A primeira do recebimento do título de cidadã soteropolitana outorgada pela Câmara de Vereadores a sua esposa Flora Gil e a segunda nas comemorações da passagem do aniversário dela.

Gil, baiano, com residência no Rio de Janeiro, nunca deixou de lado sua terra natal. O filho de médico e de professora primária, se formou em Administração pela Ufba e desde da década de 60 se envolveu com o cenário musical e cultural, foi expoente do movimento Tropicalista.

Algum tempo depois também se aprofundou no cenário político quando foi eleito vereador em 1988 e, posteriormente, entre 2003 e 2008, chegou a ser ministro da Cultural no governo Federal.  

Apesar de um momento de saúde fragilizada no último ano, Gilberto Gil, 74 anos, mostra força de vontade para continuar tocando sua vida fazendo o que mais gosta: música. Em um rápido bate papo com o BNews, o cantor falou da sua relação com Flora Gil, não quis se aprofundar muito nos comentários políticos, criticou a gestão cultural pública no Brasil e relembrou seus tempos de vereador da cidade.

 

BNews: Gil, creio que para sua família é um momento histórico. O título de cidadã soteropolitana a Flora é a oficialização do vinculo dela com Salvador?

Gilberto Gil: É um olhar possível. Isso é uma oficialização da relação de Flora com essa cidade que ela tanto ama. É uma Casa que representa o povo, o município, tem essa envergadura e esse título pode significar isso e dar esse peso. Oficializou o casamento com Salvador.

BNews:  Mas bem antes dessa casamento dela com a cidade, vem o seu com ela...

Gilberto Gil: Olha, é a melhor companheira que eu poderia ter. Eu fiz uma música para ela e que falava dessa importância da chegada dela em minha vida e que essa chegada se transformasse em uma permanência para o resto da vida e tá parecendo que é isso que vai ser (risos). É a minha companheira de 37 anos que já estamos juntos. Ela se familiarizou muito com meu modo de vive. Ela passou a participar da minha vida cultural, pois ela assumiu a gestão da minha carreira e isso forçou uma aproximação ainda maior entre nós. E é isso.

 

"A minha opinião eu pensei, pensei e pensei e acabei concluindo que as palavras dizem sim e os fatos dizem não" 
Gil sobre o cenário político

 

BNews: Mudando de assunto, queria saber qual a sua opinião sobre o cenário político neste atual momento? Você já foi vereador e ministro ao tempo que é um cantor muito conhecido e tem essa sensibilidade crítica tanto da visão de quem já foi político quanto da área cultura...

Gilberto Gil: Eu não acho importante minha opinião. Começa por aí. Até por causa da quantidade de opiniões extraordinárias que são manifestadas hoje em dia. Por todos os meios e de todas as procedências. Opiniões de todos os quilates e tudo. Então não acho importante. Mas como todo cidadão... eu até escrevi um música que tô gravando que diz mais ou menos assim: “ok, ok, ok, ok já sei que querem a minha opinião, um papo reto sobre o que pensei, como interpreto a tal vil situação” e eu concluo dizendo que “então não falo, músico e poeta, me calo sobre a  certeza e os fins. Meu papo reto sai sobre patins, a deslizar sobre os alvos e as metas”. Ou seja, a minha opinião eu pensei, pensei e pensei e acabei concluindo que as palavras dizem sim e os fatos dizem não. É muita coisa pra ter opinião. Mas a gente chegou a viver tempos muito mais terríveis e com déspotas menos esclarecidos que os atuais (risos).

BNews: E a gestão cultural no Brasil? Mudou alguma algo de um tempo pra cá?

Gilberto Gil: Nada. Sempre foi um problema no ponto de vista da participação do Estado, por conta de uma visão... primeiro, quase que assistencialista que todo o Estado tem com os grandes setores culturais e universos dos produtores e criadores de cultura, depois por causa ainda da falta de verba, que não tem verba... e essa falta que também ajuda a não desenvolver novos quadros, preparados, para gerir cultura no Brasil. Não se faz relação de uma integração interessante com os meios produtivos da cultura. A gestão pública, vendo por esse ângulo dos municípios, Estados e União, é uma dificuldade muito grande no Brasil. São instituições pauperizadas e sem força para se qualificar, embora muito desejo, muita ambição e qualificação, muito sonho... a realidade, contudo, é muito dura.

BNews: Você está aqui na Câmara, no Paço Municipal, local no qual exerceu seu mandato de vereador em 1989. O que você guardou de lembrança daqui? Gostou de ter passado pela vereança?

Gilberto Gil: Gostava, gostava sim! Eu relativamente assíduo. Vinha e participava das sessões. Era época da confecção da lei orgânica do município que corresponde a constituição. Tínhamos tidos a constituição nacional que foi seguida pela constituição estadual e a LOM. Então era momento de muita efervescência interna no sentido de recomposição da estrutura institucional da Câmara. E ali eu tive participação, trouxemos a questão ambiental para os conjuntos das questões. Criamos uma comissão de Meio Ambiente aqui. A questão cultural também tinha uma preponderância interessante até porque era uma época que a gestão municipal, através da prefeitura de Mário Kértesz, tinha também um certo empenho com a relação cultural da cidade... e o convívio com os pares, com os vereadores, também era interessante. Tinha um convívio com os velhos que estavam aqui há muitos  anos como Osório Vilas Boas e outros e tinha uns novos chegando comigo. Foi um tempo interessante. Tinham os embates e ainda hoje eu tava vindo com uma amiga que foi minha assistente de gabinete, a época, e ela tava lembrando que “puxa vida, tempos mais calmos hoje, né?” (risos). Ela lembrou quantas vezes saímos daqui cercados de gente querendo, enfim, agressivamente, enfim, manifestar suas ideias e insatisfações. É um leque de memórias de todos os esses tipos: de coisas boas, não tão boas, colegas interessantes, de gente de todo tipo e o trabalho que fazíamos pela cidade.  

Bocão News: E, para encerrar, tem alguma novidade sua? Algum lançamento?

Gilberto Gil: Breve vocês vão conhecer. Eu tô fazendo um disco. Essas estrofes que recitei para você são de uma música que fará parte desse disco. Ainda estamos preparando.  

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