Candidaturas em 2018 de Rui e Neto têm de vencer desafios, avalia especialista

Um dos mais respeitados cientistas políticos da Bahia, o professor Paulo Fábio Dantas avalia que o caminho para a disputa de 2018 não será fácil para o governador Rui Costa (PT) e nem para o prefeito ACM Neto (DEM). Segundo o especialista, ambos terão de enfrentar dificuldades diferentes. 

“No caso do prefeito ACM Neto, que está em ascensão, os desafios não são pequenos. Primeiro, manter a aliança política que o sustenta, o seu partido manter unidade com PMDB e PSDB. Também tem o desafio de um relacionamento com o governo federal”, enumerou, ao citar Rui:
 
“No caso do governador, me parece que os desafios são um pouco mais dramáticos. A eleição de prefeito tem papel na eleição de deputados federais e estaduais. Então, essa derrota do PT pode indicar dificuldades nas eleições Legislativas e o fortalecimento de partidos que dentro da base tiveram bons resultados, como o PSD. Tudo isso deve fazer com que a pressão junto ao governador seja no sentido do governador conduzir o seu governo mais com que foram as eleições municipais”. 
 
Segundo o professor, há um avanço no governo Temer: a retomada de relação com o Legislativo. “Assistíamos antes a uma paralisação da relação dos dois poderes. O Executivo tinha virado um bunker de resistência da ex-presidente, que realizava atos que tinham como objetivo a sua manutenção. O Legislativo era uma Casa de confronto, pela ação do ex-presidente Eduardo Cunha. Dilma e Cunha representavam a falta de diálogo entre os poderes. A partir do segundo semestre temos um quadro bem diferente desse”, lembra. 
 
Confira abaixo a entrevista completa: 
 
 
 
O ano começa e a gente queria falar justamente sobre as perspectivas políticas. O ano de 2016 foi muito conturbado no mundo político. Para 2017, a gente pode esperar uma melhora da imagem da política?
Quando a gente olha para 2016, devemos olhar o conjunto das coisas. É claro que toda crise política que teve o desfecho no impeachment da ex-presidente Dilma e a aceleração da Lava Jato, tudo isso deu uma característica de crise a um processo que em existiu em 2016, a partir do segundo semestre, uma retomada do processo de funcionamento dos Poderes. As relações estavam paralisadas. Eu me refiro ao Legislativo e Executivo. Assistíamos antes a uma paralisação da relação dos dois poderes. O Executivo tinha virado um bunker de resistência da ex-presidente, que realizava atos que tinham como objetivo a sua manutenção. O Legislativo era uma Casa de confronto, pela ação do ex-presidente Eduardo Cunha. Dilma e Cunha representavam a falta de diálogo entre os poderes. A partir do segundo semestre temos um quadro bem diferente desse. Do ponto de vista do funcionamento, tivemos uma retomada importante. Não só com a relação normal, mas com o reestabelecimento de uma base de apoio ao governo que permitiu a governabilidade.

Essa retomada de governabilidade é um mérito do governo Temer?
Não é um mérito apenas de Temer, ele saiu de uma longa atividade junto ao Legislativo e isso facilitou muito. Mas acima de tudo a capacidade de sair do pântano das instituições políticas. Não quero dizer, porém, que a crise acabou. Muito pelo contrário, pois o outro elemento, que não está ao alcance da classe política, é aquilo que envolve a Lava Jato e leva a uma constante atuação dos órgãos de controle. Eles são um elemento de imprevisibilidade muito grande que faz com que essa retomada da relação dos Poderes não seja algo suficiente para superar a crise política, pois tem outros elementos. Se você me perguntar as perspectivas para 2017 neste outro terreno, é uma tarefa para adivinhos. Se no primeiro aspecto as relações dos Poderes dão maior previsibilidade, tende a se manter nesse caminho de solução, o mesmo não se pode dizer no segundo aspecto. A Lava Jato nubla o céu e há grandes dificuldades de fazer previsões mais certeiras. Imagino que o que de melhor pode acontecer em 2017 é que se consiga que esse processo de apuração chegue a um ponto que se possa discernir. Claro, não há gente sem pecado nas condições da política, mas não podemos depositar as esperanças do futuro em gente sem pecado. Temos que ver o grau de envolvimento de corrupção e dos casos de políticos que entraram num sistema de competição e foram impelidos a isso. Essa separação é urgente que seja feita para que não fique a ideia de terra arrasada. Essas ideias de faxina geral, de começar do zero, não é o horizonte mais desejável. O horizonte mais desejável é a retomada da governabilidade.

Em 2016 tivemos eleições municipais. O PT diminuiu bastante, o PSD cresceu muito, o DEM... a política, sendo cíclica, o PT está perto do seu fim?
Olha, primeiro que o fenômeno do PT em 2016 está longe de ser só na Bahia. Aqui, a perda de espaço foi importante, mas foi menor do que em outros lugares. A evidência disso é que o PT continua sendo a principal força do governo estadual e a aliança que se formou em torno desse governo, ainda continua. Por enquanto, o governo tem conseguido manter a aliança. Grande parte destes partidos, como PSD e PP em plano nacional já se desconectaram do PT e aqui continuam no esquema governista. Eu acho que as condições, volto a dizer, os elementos de certeza não podemos contar. Na área da política estamos caminhando para uma eleição competitiva em 2018. A oposição se fortaleceu. Não me parece, que as forças do governo estão nas cordas. Eu acho que há uma situação de articulação que se vislumbra uma eleição disputada. Agora, o plano nacional pode mostrar se vai ser assim ou não. A Bahia tem uma tradição muito forte do pleito nacional. Tem um dado curioso que desde 1958 a Bahia não elege um governador em oposição ao governo federal. Sempre há uma primeira vez para tudo. O destino das eleições estaduais na Bahia sempre ligado à política nacional. Pelo que está havendo hoje, eu creio que as duas lideranças que têm sido apontadas como as principais a catalisar a disputa, cada um dos dois está diante de desafios para viabilizar os seus caminhos. No caso do prefeito ACM Neto, que está em ascensão, os desafios não são pequenos. Primeiro, manter a aliança política que o sustenta, o seu partido manter unidade com PMDB e PSDB. Também tem o desafio de um relacionamento com o governo federal. Vai ser muito importante para uma possível candidatura do prefeito de Salvador a expressividade do palanque federal. E mais um: a transição na prefeitura. Até agora se arma o jogo todo para que essa transição seja indolor, do ponto de vista da população.

O senhor acha que a população aceitaria bem?
Não dá para prever isso. Tudo está sendo feito nessa direção. Nessa reforma do secretariado, há uma transferência de atividades para o vice-prefeito, essa secretaria entregue a Bellintani indica que vai ter uma visibilidade grande a estratégia de governança urbana que pode servir de lastro para o sucessor. Os movimentos são de quem está preocupado em mostrar que a sua saída não vai ser um abandono da cidade. A reação da população depende de como a cidade vai ficar depois da saída. Acho que esses são os desafios do prefeito. Ele está longe de ter um caminho todo pavimentado.

E no caso do governador?
No caso do governador, me parece que os desafios são um pouco mais dramáticos. Você mencionou o resultado das eleições municipais, nós sabemos que não há uma relação direta em tempos normais da eleição de prefeito s e governador. Se fosse assim, Wagner nunca seria governador da Bahia. O papel dos prefeitos é pequeno. O resultado não determina eleição estadual. Também, a eleição de prefeito tem papel na eleição de deputados federais e estaduais. Então, essa derrota do PT pode indicar dificuldades nas eleições Legislativas e o fortalecimento de partidos que dentro da base tiveram bons resultados, como o PSD. Tudo isso deve fazer com que a pressão junto ao governador seja no sentido do governador conduzir o seu governo mais com que foram as eleições municipais. Isso significa que deve-se ampliar as forças do governo para outras bases que não o PT e fazer um governo mais ajustado a base. Porém, na contramão dessa necessidade vem uma outra do PT. O PT derrotado em muitos municípios da Bahia, derrotado em plano federal, muitos quadros do partido perdem espaço e o governo da Bahia vira quase o que resta para o seu partido. Ou seja, tem que fazer o contrário do que as urnas indicam. Ele terá que se equilibrar entre as duas pressões opostas. Nos próximos meses poderemos observar qual será a decisão dele. A sorte dele está muito vinculada a isso. Otto é senador, tem mandato até 2022 e essa realidade pode ser lida de duas maneiras: ele tem mandato e poderia até esperar, não ser candidato agora e garantir depois uma eleição tranquila. Mas também pode se raciocinar o oposto. Como ele não tem nada a perder, ele pode ser candidato a governador, pois pode ter uma posição decisiva. Os desafios colocados a Rui no sentido de manter essa base é grande. Não se sabe qual das duas pressões será mais forte e em que decisão ele caminhará.

Professor, fala-se muito das possíveis traições em 2018. Traições do PSDB com Neto, PSD e PP com Rui... o senhor acha que isso pode ser o fiel da balança?
Acho que a palavra traição é estranha à política. Embora se use muito no jargão, não há lugar. A política por excelência é um lugar onde as mudanças de posições não podem ser vistas como aberrações. Quando um partido altera a mudança de posição, isso não é uma traição. É uma mudança das condições. No Brasil, as forças que governam hoje com Temer são praticamente as mesmas que governavam com Dilma. Chega a ser interessante discursos na linha de que a direita chegou ao poder. Temos um conjunto de forças que é diferente, mas a base parlamentar é parecida com a do governo Dilma. Os problemas do governo Temer são da mesma natureza que os do governo Dilma. Entretanto, temos um governo com uma gramática de atuação diferente. É um governo quase de uma atuação parlamentarista. A presidente Dilma tomou decisões que apontavam para um governo com um programa dela, do PT e de partidos mais de esquerda. Armou-se todo um discurso político que não tinha nada a ver com a base governista e o PT teve a ilusão de que sustentaria a aliança. Ou você sustenta com um plano de governo adequado à base ou toca o programa que quer e mantém a fidelidade com cargos, emendas, favores. Quando a crise econômica chegou e essa condição material acabou, o poder político foi embora. O erro político fundamental é imaginar que pode fazer um governo com uma plataforma A uma base que pensa B. O governo agora liderado pelo PMDB tem uma visão mais realista. O PMDB não tem ligação com plataforma com neoliberalismo. A tradição do PMDB é republicana brasileira, que envolve patrimonialismo, conciliação, soluções de interesses para que o processo prossiga sem rupturas. O PMDB reconhece que há uma situação instável, mas forças mais liberais e realiza uma agenda realista para o seu governo, para sua base. Com isso, podemos ter uma inflexão para uma direção, mas que garante sustentabilidade. Quem vai decidir, é o processo eleitoral que vem em 2018. A lição precisa ser aprendida. Seria estranho se depois dessa crise toda a esquerda se saísse bem. É normal que as forças de centro –direta cresçam no momento que as forças de esquerda se enfraqueceram. Precisamos tirar do horizonte que só tem democracia quando o nosso lado ganha.

Professor, sei que o senhor é cientista político, mas eu queria um exercício de futurologia. Se a eleição fosse hoje, como os dois candidatos (Rui e Neto) sairiam?
Olha, eu não tenho como fazer isso. O fator nacional é muito importante na decisão de pleitos estaduais. A eleição não será agora e quando ela acontecer, não acontecerá nas condições que existem agora. É um exercício que não tem como fazer. Você vai ter eleição em 2018 com a finalização do governo Temer – ele pode cair antes, mas acho mínimo, a não ser que seja pelo Judiciário. Aquela imagem de FHC comparando o governo a uma “pinguela” é até rigorosa demais, pois o governo tem dado resultado palpáveis. Saberemos em 2018 se o governo Temer entregou ou não a mercadoria que prometeu: entregar o país com a crise econômica debelada, o desemprego controlado e revertido. Se ele entrega essa mercadoria, o cenário é um. Se não entrega, é outro. O governo Sarney entregou a mercadoria que prometia, apesar de ser tudo quase um desastre. Naquele momento, o que lhe cabia era concluir a transição democrática. Ele terminou com o entulho autoritário, legalizou partidos comunistas, convocou constituinte, a condução nos levou para uma grande vereda. A transição foi muito exitosa do ponto de vista político, hoje a tarefa de Temer não é essa. A tarefa é conter a crise e fazer a retomada. Ele vai poder bater cabeça em várias áreas, mas se realizar isso, cumpre uma missão importante para que a economia brasileira retome a trajetória que tinha. Quem está na posição de mero analista pode dizer isso: não creio em faxinas. Não é pelo caminho da não política. Não se produz uma nova elite política do dia para a noite.

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