Um desabafo de quem trabalha com a Saúde Mental no SUS

| por Rodrigo Paixão Mello*

Venho através deste denunciar a situação calamitosa em que se encontra a assistência pública oferecida às pessoas com transtornos mentais no Brasil, mais especificamente na Bahia. Talvez para quem não necessite ou não tenha familiar que precise, a situação esteja tão ruim quanto a assistência para qualquer problema de saúde no SUS. Tentarei explicar, porém, com alguns detalhes de quem está inserido e sofrendo na linha de frente deste cuidado, que a escassez de leitos para internação psiquiátrica pelo SUS, a possibilidade de fechamentos em pouco tempo dos hospitais psiquiátricos públicos existentes no estado, a grande dificuldade de acesso a psiquiatras e psicoterapeutas, o número reduzido de CAPS em funcionamento e a frequente falta de medicamentos padronizados do SUS, têm gerado um verdadeiro Holocausto cujas vítimas são as pessoas com transtornos mentais, familiares e pessoas ao seu redor. Falarei o quanto pessoas ligadas ao Ministério da Saúde, baseadas em uma ideologia anacrônica, ao longo dos últimos anos, criaram portarias contrárias à lei, o que favorece a desassistência a estas pessoas e à negligência dos estados.
 
Primeiramente gostaria de falar um pouco do impacto que os transtornos mentais trazem para a sociedade. Inicialmente, são transtornos bastante prevalentes. Há um estudo no Brasil (1) que mostra que de todos pacientes que vão procurar atendimento nos postos de saúde da atenção primária, até 51,1% deles apresentam algum transtorno mental. Segundo, são transtornos muitas vezes incapacitantes. Segundo a OMS, a Depressão já é a principal causa de incapacitação no mundo (2), e entre as 20 doenças mais incapacitantes estão outros transtornos mentais como alcoolismo, esquizofrenia, transtorno bipolar do humor e transtornos de ansiedade (3).
 
Além disso, são transtornos que levam à morte. Também, segundo a OMS, 800 mil pessoas morrem por suicídio por ano no mundo, e para cada suicídio há 20 tentativas de suicídio (4). Isso significa que se morre mais por suicídio que por assassinato no mundo. É a segunda maior causa de morte entre 15 e 29 anos (4), só perdendo para acidentes. No Brasil, só de dados oficiais, foram 12 mil mortes por suicídio, mas sabemos que são dados subnotificados. Segundo a OMS (5), 97% dos suicídios são diretamente ligados a um transtorno mental e, portanto, poderiam ser prevenidos com a redução do preconceito e o tratamento adequado. Transtornos mentais graves matam por outras vias além do suicídio. Pessoas podem deixar de se alimentar, ou se expõem a situações de risco, como ter relação sexual desprotegida devido a uma crise, contraindo DSTs como AIDS. Por fim, diante de quadros psicóticos, os portadores podem chegar ao ponto de comer lixo e até matar, muitas vezes seus entes queridos.
 
Por conta de todos estes dados, em países sérios, há um investimento crescente em investimento de políticas públicas de saúde destinadas à prevenção e  tratamento dos transtornos mentais. Também há um debate intenso na mídia, já que se falar sobre o tema ajuda a diminuir o estigma e estimula as pessoas a procurarem ajuda. Quando se fala de assistência pública destinada aos portadores de transtornos mentais, temos que entender que até meados dos anos 70 só era destinada para portadores de transtornos mentais graves e psicóticos, ou seja, aqueles em que há a perda da noção da realidade. Até aquela época quase não existiam os antipsicóticos, que tiram estas pessoas da crise, tratam a psicose e permitem que a pessoa melhore sua funcionalidade. Só existia a etroconvulsoterapia (ECT), que no passado já chegou a ser usado como tortura, mas que até hoje é o melhor tratamento para alguns casos graves e resistentes. O ECT tem o objetivo de gerar uma convulsão, e a pessoa submetida não tem qualquer lembrança ou dor com o ocorrido, da mesma forma que uma pessoa epiléptica não lembra da sua crise. Atualmente é feito sob anestesia não por conta de uma eventual dor, e sim, pois é utilizado um relaxante muscular que evita algum acidente na convulsão, como entorses. Até hoje é o melhor tratamento para alguns casos graves e resistentes (6). Então, como não existiam muitas opções de tratamento como temos hoje, havia um entendimento equivocado de que pacientes psicóticos seriam perigosos, e deveriam estar excluídos, para que a sociedade ficasse protegida deles. Foi assim que surgiram os manicômios, locais onde as pessoas eram depositadas, sem previsão de alta. Era uma época de trevas, com vários filmes e livros retratando o que ocorria. Assim, em várias partes do mundo, e também no Brasil, se iniciaram reformas antimanicomiais, que levaram a mudar esta realidade.
 
No Brasil, a reforma foi promovida a partir de 1978 pela pressão de vários movimentos sociais, destacando-se o Movimento Nacional dos Profissionais de Saúde (MTSM). Este movimento era constituído também por profissionais que trabalhavam nestes ambientes, incluindo psiquiatras, que viam de perto a realidade dos manicômios, e assim podiam denunciar suas falhas. Por meio da reforma antimanicomial, muitas pessoas institucionalizadas há anos, voltaram para suas casas. Mas reforço que isso só foi possível com advento de psicofármacos, os quais controlavam as crises, associado ao atendimento multidisciplinar focado na reinserção da pessoa na sociedade.
 
Em 06 de abril de 2001, foi aprovada a Lei nº 10.216, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. O seu artigo 4º regulamenta as internações, observando que só serão indicadas quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. Salienta que é vedada a internação em instituições com características asilares. Ou seja, a lei reconhece a existência de casos para os quais os recursos comunitários não são suficientes e há recomendações científicas e internacionais para internação. Assim, fica estabelecida e legitimada a necessidade de internações psiquiátricas. 
 
Quero deixar claro que internação psiquiátrica não é sinônimo de manicômio. Manicômio seria um depósito de pacientes com transtornos mentais, porém com objetivo de segregação social, retirando os pacientes do convívio na comunidade por tempo prolongado, sem fins terapêuticos. Hospital psiquiátrico é uma instituição especializada que oferece assistência integral (serviços médicos, de assistência social, psicológicos, ocupacionais, de lazer, e outros) às pessoas cujo transtorno mental em determinado momento está tão grave que lhe tira a capacidade de auto determinar-se e saber o que é melhor para si.
 
Assim, elas são internadas voluntária ou involuntariamente até que melhorem do seu quadro e possam viver normalmente em sociedade. Há critérios consensuais usados em todo mundo para internação das pessoas com transtornos mentais como: heteroagressividade, agitação psicomotora, ideação suicida com planejamento, descuido completo de autocuidados, como recusa alimentar, comportamento de risco, recusa ao tratamento, todos estes associados a um suporte familiar que não garanta a proteção desta pessoa em domicílio. Assim, qualquer portador de transtorno mental deve ter direito à internação quando o agravamento de sua doença colocar em risco a sua vida ou a vida de pessoas a sua volta, direitos esses garantidos pela lei supracitada.
 
Numa internação a pessoa não terá acesso a meios que a façam se machucar ou machucar as pessoas ao seu redor, pois se agitada será feito protocolos internacionais para contenção química e mecânica. Além disso, a medicação será oferecida de forma mais garantida que em casa. Com os tratamentos que dispomos atualmente, isso raramente dura mais do que 2 meses. 
 
Aí que está o problema, há grupos que até hoje defendem que sejam fechados todos os locais para internação psiquiátrica, associando-os a manicômios. Se
intitulam até hoje como sendo da luta antimanicomial, apesar de não termos mais manicômios há décadas. Muitos deles entendem que não existem transtornos mentais e sim sofrimento psíquico. Falam que a "loucura" é fruto quase que exclusivamente dos problemas sociais, e que a sociedade precisa conviver com a loucura, não se devendo medicá-la, pois além de enriquecer a indústria farmacêutica, tiraria a singularidade e a autonomia da pessoa. Porém, como falei antes, são os transtornos psicóticos que sem tratamento tiram do indivíduo a autonomia e a capacidade de assumir as responsabilidades civis. Essa ideologia não é baseada em ciência.
 
Atualmente os estudos de forma sistemática e clara demonstram que os transtornos psicóticos são tão orgânicos como um infarto, tendo marcadores biológicos e fatores de riscos psicossociais. Não há prova maior disso que a melhora que os indivíduos acometidos apresentam com o tratamento medicamentoso, comparada com a dos que recebem placebo. Mas essas pessoas dizem que é um sofrimento psíquico e não aceitam dizer que seja uma doença.
 
Para apoiadores desta ideologia, nunca se precisará de internação, todos os casos poderão ser manejados sem passar por isso. Seria o mesmo que dizer que pessoas com problemas cardíacos nunca precisarão de internação em UTI. O problema é que esses grupos que se intitulam da luta antimanicomial estavam à frente da coordenação geral de saúde mental, no âmbito do executivo federal, e aos poucos a partir de 2002, de forma contrária à lei, começaram a lançar uma série de normatizações do Ministério da Saúde. Uma das quais foi a Nº 251, de 31 de janeiro de 2002 criando o PNASH – Programa Nacional de Avaliação do Sistema Hospitalar/Psiquiatria. A avaliação em si é necessária, como é para qualquer instituição de saúde. No entanto, desde a sua formação há um viés ideológico, como por exemplo, se o hospital tiver eletroconvulsoterapia, perde pontos. Pontuação que viabiliza, dentre outras coisas, diminuição do valor da diária per capita repassado. Além disso, o mais grave é que as comissões que avaliam já vestem a camisa do fechamento dos hospitais. Avaliam e não passam um feedback para a instituição, no sentido de apontar o que se deve melhorar. Não é transparente. Boa parte dos problemas tende a ser por conta de falta de financiamento. Por fim, na prática, as equipes responsáveis por esta avaliação, em vez de instituírem reformas, estabelecidas na própria portaria, ou sugerirem o aumento de financiamento, propõem sempre fechamento. Assim como hospitais psiquiátricos, qualquer instituição de saúde pública apresenta problemas. Imagine se fosse criada uma avaliação para UTIs com o objetivo não de fiscalizá-las, mas de fechá-las? Os leitos de UTIs já estão escassos. No entanto, quando se fala em leitos psiquiátricos, esta é a tônica.
 
A portaria Nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011, institui a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) em que retiram hospitais psiquiátricos e ambulatórios especializados dos cuidados aos pacientes. Graças a tais portarias, a oferta de leitos psiquiátricos no SUS diminuiu quase 40% em 11 anos (7), e reduzidas grande parte das vagas para ambulatórios, embora a população tenha aumentado.
 
Segundo a OMS, deveria haver 1 leito para 1000 habitantes. O MS, discordando de forma gritante com essas recomendações científicas, preconiza apenas 1 leito para 23 mil habitantes, o que seria na Bahia, 650 leitos. Porém, o estado atualmente conta com apenas 12 leitos no Hospital das Clínicas (Federal) e 166 leitos em hospitais estaduais. Apesar dessa escassez, na  reportagem do jornal A Tarde do dia 14/3/17, o secretário de saúde do estado, Fábio Villas Boas, anuncia que todos os leitos da gestão estadual serão fechados até o final do ano. Isso implicaria não apenas no fechamento dos leitos, como dos ambulatórios, também bastante escassos. É o que já está ocorrendo com o Hospital Afrânio Peixoto, em Vitória da Conquista.
 
Por conta disso, sofro quase todos os meses quando me deparo com pacientes com critérios claros para internação e que são encaminhados para internação, mas não encontram vagas nos hospitais. Isto com toda a dificuldade para acessá-los, já que muitos moram em zonas rurais, de difícil acesso, ou em comunidades urbanas, muitas vezes perigosas, e após o resgate pela equipe do SAMU, e em casos em que o paciente está armado, até de policiais, são conduzidos para avaliação nas emergências. Quando vão para hospitais gerais ouvem: "Podemos até fazer uma medicação de urgência, mas não temos como mantê-lo aqui. Precisa de um leito especializado". Quando vão para as urgências psiquiátricas ainda existentes, ouvem: "Não temos vagas para internar… antes tínhamos mais vagas, porém muitos leitos foram fechados".
 
Quando não há internação eles podem suicidar-se, podem fugir de casa e se expor à fome e estilo de vida sub-humano, eles podem se expor a relações sexuais de risco, a família exaurida pode deixá-lo em cárcere privado (algo que só ocorria na era pré-manicomial); alguns pacientes ameaçam as pessoas de morte, outros agridem verbalmente e por fim fisicamente familiares e pessoas ao seu redor, algumas das quais vão a óbito. Quando assassinam alguém devido à doença, muitos são linchados por tal delitos. Nas cadeias passam a conviver com pessoas perigosas. Se o delito for algo aberrante como matar um familiar ou uma criança, os outros presos podem espancá-los e matá-los fazendo "justiça" com as próprias mãos. Nas cadeias a grande maioria não tem acesso a médico e se tiverem, as medicações não são dispensadas de forma controlada, como num hospital, ficando em posse do próprio paciente que na grande maioria das vezes não toma ou pode tentar suicídio tomando-as todas de uma vez. Caso advogados, delegados das cadeias (percebendo o comportamento bizarro) ou familiares informem ao juiz de que se tratam de portadores de transtornos mentais graves, podem, por medida judicial, ir ao Hospital de Custódia e Tratamento (HCT), o que não ocorre em grande parte das vezes. Lá no HCT serão tratados com equipe multidisciplinar e medicações. Se fossem internados em hospitais psiquiátricos antes do delito, os pacientes receberiam alta após a melhora, porém no HCT, respondem a um processo judicial. Precisarão passar por uma perícia para provar que são inimputáveis, depois serão julgados, o que em média demora muito mais tempo que o necessário para melhorar. Recentemente um paciente foi julgado 1 ano após chegar no HCT.
 
Quando julgados, mesmo que o juiz aceite o laudo médico de inimputabilidade (ele pode não aceitar), a lei penal, feita na época manicomial, permite que o juiz determine uma medida de segurança, que pode ser de até 3 anos de internação no HCT. Ou seja, o paciente pode estar apto para alta, porém terá de ficar internado por 3 anos. Isso seria indiretamente culpar por um crime quem teve tanta responsabilidade pelo que fez que uma criança de 2 anos. Para piorar, quando se termina o tempo da medida, muitas famílias aterrorizadas com o que ocorreu, não querem mais ir buscá-lo no HCT e eles, agora sim, acabam ficando institucionalizados, em alguns casos até a morte. Isso, porque os governos estaduais e municipais não põem em prática a criação do dispositivo preconizado para estes casos de abandono familiar, as residências terapêuticas (algo direcionado no artigo 5 da lei 10.216). Aqueles que têm a ventura de possuir famílias que vão buscá-los, muitas vezes não retornam para suas cidades, pois estão ameaçados de morte e os que não têm condições de ir para outras cidades, acabam sendo linchados ou assassinados quando recebem alta. Um exemplo claro foi o que ocorreu com Manoel Batista Santa Rosa. Ele havia cometido o delito de matar uma criança, devido à Esquizofrenia. Quando voltou a cidade próxima de onde cometeu o delito, por não ter dinheiro para viajar par São Paulo, onde ficaria com outros irmãos, foi assassinado. A matéria (8) divulgando sua morte há 1 ano, bastante tendenciosa, mostra um pouco de como a cidade reagiu ao seu retorno. Fiz um comentário sobre isso, já que foi meu paciente, mas a página não publicou meu comentário. Por fim, se não assassinadas, essas pessoas são estigmatizadas por serem pessoas com transtorno mental e agora por terem sido presas.
 
Portanto, por falta de uma internação anterior, aumenta-se o número de presos inimputáveis no nosso tão inchado sistema carcerário, o que não ocorreria se fossem tratados adequadamente. Em um dos poucos estudos feitos no Brasil (9), por um período de onze meses na Penitenciária Santa Augusta (Criciúma – Santa Catarina – Brasil), de 557 prisioneiros consecutivos, 26,4% tinham transtornos psicóticos, fora os que tinham outros transtornos que também conferem a inimputabilidade. A cada dia chegam mais internações no HCT da Bahia, que já está superlotado. Atualmente temos 154 pacientes no HCT.
 
Destes, 58 pacientes estão por homicídio, 6 por latrocínio, 35 por tentativa de homicídio, 10 por lesões corporais, 7 por ameaça, 4 por estupro, 3 por tentativa de estupro dentre outros. Para piorar, os juízes frequentemente estão decretando internação provisória do paciente. Assim, os pacientes ficam em situação anômala pois ficam internados eternamente, até que o juiz entenda ser conveniente aplicar alguma medida de segurança ou alta para atendimento ambulatorial.
 
Ainda temos um grande problema atualmente no HCT. Estamos com 60 % a menos de funcionários, pois acabou o contrato REDA em Novembro de 2016, e até o presente momento, apesar de solicitações diversas, o estado não convocou um novo concurso. Assim, só temos 3 médicos assistentes para toda essa população de pacientes graves, além de poucos enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos etc. Fora isso, a cada semana dispomos de menos opções de fármacos, pois o governo não tem feito licitações para compra de novas medicações. Imagine a gravidade que é termos pessoas com transtornos mentais graves aqui, sem um tratamento adequado, até que venham a ir a julgamento.
 
Se há alguém que ganha com a falta de leitos no SUS são as clínicas particulares, geralmente bastante caras, com diárias em SSA que podem chegar a 2500 reais. Tenha certeza que quando não houver leitos, a família judicializará o processo de internação e o estado pagará caro por essas internações em hospitais/clínicas particulares.
 
Foram criados serviços do SUS destinados para atendimento destes transtornos mentais graves e persistentes que seriam os CAPS. No entanto, só funcionam em horário comercial, como um tipo de Hospital Dia, que não substitui as enfermarias especializadas. O CAPS 1, para cidades menores, pode funcionar só com médico clínico, sem a necessidade de psiquiatra, apesar de ser destinado ao tratamento de transtornos graves e persistentes, casos cujos clínicos manejariam com a mesma perícia que manejariam uma neurocirurgia.
 
Existe o CAPS 3, que funcionaria 24h, mas não tem a mesma assistência que um hospital, pois não é necessária a presença de médico 24 h. Como só o médico pode indicar contenção física ou medicação de urgência, se o paciente estiver agitado isso não poderá ser feito, ou será feito de forma antiética por profissional não médico. O parecer CFM 01/2011 fala sobre as irregularidades das internações nos CAPS, considerando antiéticas, vulnerando a segurança da assistência aos pacientes e a prática segura do ato médico. Além disso, está sempre faltando medicação nos CAPS. Não há uma reserva para os pacientes internados nestes CAPS, e com isso muitas vezes são as famílias que trazem as medicações para darem aos pacientes. Por fim, só podem ficar no máximo 72 h internados. Só temos um CAPS 3 em Salvador, e deveríamos ter 18, considerando que para cada 150 mil habitantes deveria ter 1 CAPS 3. Deveríamos ter 27 CAPS 2 em Salvador, e só temos 17, muitos deles sem médicos, especialmente, pois se paga pouco.
 
A outra opção dada pela portaria seriam os leitos psiquiátricos em hospitais gerais. Seria excelente ter a mesma quantidade de leitos que há nos hospitais psiquiátricos nos hospitais gerais. No entanto, na prática, em Salvador só temos 12 leitos no Hospital das Clínicas e 2 leitos no Hospital Roberto Santos.
 
De acordo com um estudo (10), a incidência de comorbidade médica para a qual pacientes psiquiátricos devem ser hospitalizados é de pelo menos 25 por
100000 habitantes. Assim, só para atender a demanda de Salvador, der veríamos ter 668 leitos psiquiátricos em hospitais gerais. O governo fala que serão transferidos os leitos dos hospitais psiquiátricos para os hospitais gerias, porém isso nunca ocorreu em todas estas décadas de diminuição do número de leitos. Além disso, criaram portarias em que os pacientes só podem ficar internados por 15 dias, enquanto em um estudo (11), a média de tempo de internação para pacientes psiquiátricos em hospitais gerias foi 28 dias. Por fim, as regras de financiamento para estes implicam num recurso bem menor por leitos que os destinados aos leitos dos hospitais psiquiátricos e, só se exige a presença de psiquiatras em hospitais com mais de 30 leitos psiquiátricos. Ou seja, os pacientes não serão bem assistidos, pela menor quantidade de recursos e pela não necessidade de psiquiatras para acompanhar tais pacientes.
 
Uma outra questão é a falta de psiquiatras nas cidades do interior. Paga-se pouco e não é justificado, pois todo interior tem juiz e promotor. Todos teriam médico clínico e psiquiatra se houvesse um concurso decente com plano de carreira. A maioria trabalha sem concurso e quando muda o prefeito, todos profissionais são demitidos. Não há vínculo empregatício seguro. Por fim, há falta recorrente e até constante de medicações básicas para os transtornos mentais, tanto na rede estadual, como em muitas cidades. Assim, quem não tem condições de comprá-las fica sem medicação e acaba descompensando.
 
Recentemente, surgiu uma nova associação de pacientes e familiares que tem de fato lutado pelos direitos dos portadores de transtorno mental, chamada AFATOM (Associação de Apoio aos Familiares, Amigos e Pessoas com Transtorno Mentais da Bahia), o que traz uma nova esperança pela melhor luta a favor da saúde mental.
 
Quando se fala sobre transtornos mentais não psicóticos, ou moderado, que não seriam casos para CAPS, a assistência é ainda pior. Como coloquei anteriormente, pela portaria 3088 não há na rede chamada RAPS o apoio dos os ambulatórios de psiquiatria e de psicoterapia. Ou seja, ambulatórios municipais, estaduais e até os universitários, não terão verbas destinadas e serão gradativamente destituídas, como os hospitais psiquiátricos. Interessante que o SUS atualmente apenas paga 10 reais por consulta com psiquiatra. Mas, com a RAPS, nem isto ocorrerá. Assim, quem tem depressão moderada, sem ideação suicida, por esta lógica, em vez de ser atendido por psiquiatra num ambulatório, deve ser atendido pelo médico clínico geral do posto de saúde da família. Pessoas portadoras de TOC, transtornos de personalidade, dentre outros transtornos cujo manejo tanto para o diagnóstico, como para o tratamento geralmente é complexo, serão atendidas exclusivamente por médicos da família, já sobrecarregados, com agendas lotadas, tendo que atender crianças, gestantes, idosos, etc. Além disso, a formação que o estudante de medicina tem em psiquiatria é insuficiente para manejar tais casos. Os médicos dessas unidades contam com o apoio do NASF, uma equipe multiprofissional que pode auxiliar no manejo dos pacientes. Estes não atendem diretamente os pacientes, só fazem orientações. Em Salvador, e provavelmente em toda Bahia, não há 1 psiquiatra contratado para os NASFs. 
 
Para maioria dos transtornos mentais leves, o tratamento de escolha envolve psicoterapia individual, porém, não se acha no SUS. Os poucos psicólogos acabam não conseguindo atender à demanda, e não conseguimos enviar novos casos. Psicoterapia acessível economicamente só é encontrada nas faculdades, por estudantes de psicologia. Não consigo entender como, enquanto há uma política pública que tira dos cidadãos acesso a psiquiatras e psicólogos, profissionais que se utilizam de um saber baseado em evidências já claramente comprovados, o governo anuncia a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), institucionalizando no SUS atendimento de homeopatia, plantas medicinais e fitoterápicas, medicina tradicional chinesa/acupuntura, medicina antroposófica e o termalismo socialcrenoterapia, algo que, como o nome já diz, deve ser complementar.
 
Imagine o que ocorreria com você, se tivesse depressão, e não tivesse condições de pagar consultas particulares e não tivesse um plano de saúde. Se sua rua fosse coberta pelo Programa de Saúde da Família - em Salvador, apenas 18,4% da população é coberta – você seria atendido por um especialista em medicina da família, que já tem uma demanda enorme, com pacientes de todos os tipos de comorbidades. Caso passasse um antidepressivo, provavelmente recorreria a poucos que têm no SUS, geralmente os com mais efeitos adversos. Se tivesse em falta, teria que os comprar. Caso o médico encaminhasse para psicoterapia, não acharia no SUS, teria que ir para uma lista das faculdades. Caso tivesse uma resistência ao tratamento e o médico desejasse um apoio de um psiquiatra, não conseguiria, pois não há psiquiatra nos NASFs na Bahia, e não há ambulatórios pela RAPS.
 
Quando fecharem definitivamente os leitos psiquiátricos, se você piorasse muito, a ponto de decidir matar-se, e não tivesse uma rede social de apoio, não teria onde ser internado pelo SUS até melhorar. Resumindo, se você tiver transtorno mental e não tiver plano, ou condições de arcar com custos de atendimentos particulares, que são caros, sofrerá muito por depender do SUS.
 
Pelo impacto que os transtornos mentais trazem para a sociedade, em países sérios, a saúde mental é considerada uma prioridade, discutindo sobre isso nas escolas e aumentando-se inclusive o número de leitos psiquiátricos. Para nós que trabalhamos na linha de frente, tem sido insuportável ver familiares desesperados sem conseguir manejar a situação em casa. Eles veem seus objetos pessoais comprados com tanto esforço quebrados, veem seus entes queridos agressivos, sem aceitar medicações. Estes não conseguem a internação quando precisam e logo depois veem estas pessoas se suicidarem ou matar outra pessoa, muitas vezes da própria família, ou veem serem assassinados por vizinhos. Beira ao insuportável perceber que a pessoa teria todos os critérios para internação e não poder ser internada por falta de vagas. Seria como ver uma criança tendo mal epiléptico apenas receber uma injeção e ser mandada para casa, ou ver uma pessoa enfartando receber um AAS e ser mandada para casa, pois não há vagas. Beira ao insuportável ver a pessoa com quadro grave melhorar e estar há um bom tempo bem com  determinada medicação e sem um motivo plausível, passar a não ter acesso à medicação gratuita e piorar pois não tem condição de comprar. E ainda mais insuportável é ver que pessoas que teoricamente deveriam lutar a favor dos portadores de transtornos mentais, não fazem nada e até apoiam esta desassistência, por questões ideológicas. Elas permitem que o estado seja negligente, afinal, com estes fechamentos dos hospitais psiquiátricos, as verbas e estruturas serão redirecionadas, e com certeza não serão para saúde mental.
 
Assim, tudo isto precisa ser divulgado. O reflexo da reforma antimanicomial se mostra hoje como uma reforma anti "psiquiatra", pró manicomial, mas principalmente perversa para com as pessoas que sofrem com transtornos mentais e seus familiares.
 
 
1. Gonçalves DM, Kapczinski F. Prevalência de transtornos mentais em indivíduos de uma unidade de referência para Programa Saúde da Família em
Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. Cad Saude Publica. 2008 Sep;24(9):2043-53.
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3. Murray CJ, e cols. Disability-adjusted life years (DALYs) for 291 diseases and injuries in 21 regions, 1990-2010: a systematic analysis for the Global
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*Rodrigo Paixão Mello é psiquiatra.

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